|
|
Vida e obra
de Emílio Hinko A
produção do arquiteto Emílio Hinko em Fortaleza é ainda pouco conhecida, mesmo entre
os profissionais e estudantes de arquitetura, apesar do grande número de obras e do
destaque de algumas delas na cidade, como grandes equipamentos públicos.
Emílio Hinko nasceu em 09 de abril de 1901
em Budapeste, na Hungria. Por influência do pai, que era construtor, interessou-se pela
arquitetura, tendo-se formado pela Escola Politécnica da Hungria, com especialização em
maquete e montagem. Durante a Primeira Guerra Mundial, passou por dificuldades, tendo
inclusive perdido familiares no conflito.
A base de sua formação era a arquitetura
clássica - passava muito tempo reproduzindo estilos, estudou os livros de Alberti, as
ordens arquitetônicas, e dominava perfeitamente o detalhamento. Quando se graduou, saiu
de Budapeste e foi para Roma, com dois amigos - arquitetos judeus - em uma viagem de
estudos, em busca da arquitetura neoclássica, que merecia ser reproduzida.
|
|
| Na Itália, Emílio arranjou emprego como
apontador de obras, controlando a entrada e saída de material do canteiro. Este emprego,
ao ar livre, lhe trazia grande desconforto, por causa do inverno rigoroso. Seus amigos,
que tinham conseguido melhores posições em um escritório, lhe indicaram para uma
oportunidade que surgiu, trabalhar no escritório de Stachine, arquiteto oficial de
Mussolini. A filosofia que Hinko adotou a partir de então foi a de se entregar
inteiramente ao trabalho - trabalhava 14 horas por dia, em média. Dessa intensa
dedicação nasceu uma amizade com Stachine, com quem ele colaborou em diversos projetos,
como no Banco de Tripoli e na Estação Ferroviária de Milão. Emílio trabalhou na Itália por aproximadamente cinco
anos, onde ainda desenvolveu projetos de bancos oficiais e vilas de veraneio. Durante esse
período, tomou conhecimento do Brasil, através de uma família italiana que tinha uma
casa de comércio em Belém do Pará, e se interessou em conhecer aquele país, motivado
pela possibilidade de juntar dinheiro para se casar - sua noiva havia ficado na Hungria.
Embarcou num navio, e veio dar em Fortaleza, em 1929, depois de escalas no Amazonas.
|

Emílio Hinko
em 1982 (1) |
Fortaleza à
época, na década de 20, com apenas 100.000 habitantes, se restringia a algumas ruas no
Centro e a grandes faixas de praias, dunas e coqueirais. Essa primeira visão de uma zona
tropical causou uma forte impressão em Hinko, que resolveu ficar por algum tempo. Ele
ficou hospedado na pensão da Madame Gautier, e passava os dias fazendo croquis de casas
nas mesas dos bares - o que despertou a atenção das pessoas, que não conheciam a
palavra arquiteto, mesmo as mais ilustres. Assim começaram as primeiras encomendas,
principalmente de casas, para médicos. A partir de então foram feitas várias residências, no Benfica e
em Jacarecanga, de acordo com os desenhos esboçados - o cliente podia ver o que iria ser
construído, fazendo alterações ainda na planta.
|
|
| "Ele imprimiu nova concepção ao
tratamento do lote urbano, modificando a disposição da edificação no mesmo. Os
projetos de Hinko previam casas afastadas dos lotes, prédios recuados, jardins, muros
baixos e banheiros no interior das mesmas. Com isso, ele promovia a saúde e a relação
entre o público e o privado. Antes, as casas eram enfileiradas, sem recuo e com os
banheiros fora delas. Essa visão de que as casas precisam ser ventiladas, o arquiteto
trouxe da Europa, que amargava epidemias de doenças infecto-contagiosas, como a
tuberculose". Com o
aumento do número de projetos, ele se socializou muito, principalmente com os clientes
médicos, de cuja vida social participava.
|
 |
Projeto de Emílio
Hinko para a rua
São Bernardo (2) |
|

Casas construídas para aluguel, na rua Floriano
Peixoto (1) |
|

Casas na Av. da Universidade (1) |
Casa na Av. Duque
de Caxias com rua
Major Facundo, onde
hoje existe o Hotel
Chevalier (1) |
|
 |
|

Hospital de Messejana - 1930
(antigo Sanatório) (3)
Sede do Náutico Atlético Cearense, onde
predomina o estilo barroco genovês, com
marcada influência da cidade italiana de
Gênova, onde viveu vários anos antes de
migrar para o Brasil (3)

Base Aérea de Fortaleza,
na av. Borges de Melo (4)
|
"O início da
obra de Emílio Hinko é marcado pelo grande número de projetos residenciais, onde se
observa a preocupação com a salubridade, conforto e higiene das habitações. A
implantação é feita de maneira a permitir a iluminação e a ventilação natural.
Percebe-se também a utilização de elementos modernos, como o brise e a pérgula, além
de um jogo bem equilibrado de volumes". Em seguida veio o projeto do Hospital de Messejana, onde adotou os
princípios de salubridade que seguira para as vilas, na Itália - pavilhões separados
para evitar a contaminação, muita ventilação, integração com áreas verdes.
O projeto de Hinko de maior visibilidade
talvez seja o Náutico Atlético Cearense, clube criado por profissionais liberais que se
organizavam em quiosques, em busca de uma vida social mais dinâmica. A construção
da atual sede completa agora cinquenta anos. O Náutico foi construído pela construtora
de Hinko, também um empreendedor.
"No início da década de 40, foi
convidado pelo brigadeiro Eduardo Gomes para elaborar e administar a construção dos
vários edifícios que compõem a Base Aérea de Fortaleza, inclusive das residências
para sargentos próximas à Base, na av. Borges de Melo, e para oficiais superiores na
Aldeota".
Com esse projeto, ele
desenvolveu um estilo regional, fazendo uma arquitetura adaptada ao clima, com varandas,
terraços, marquises e elementos vazados. "Outra importante característica diz
respeito ao caráter permanente das obras projetadas e construídas por Hinko. Sua obra
resiste ao tempo, não apenas pela resistência dos materiais empregados, que embora
simples não sucumbem à ação do tempo, mas também porque os usuários gostam das
construções, e não fazem intervenções".
A essa época a família de
Hinko vem da Hungria para o Brasil, passando a viver com ele em Fortaleza.
|
|
 |
Alojamento para oficiais
da Base, na av. Borges
de Melo (4)Utilização
de moringas
(jarros de barro) na
construção de colunas (3) |
|
 |
|
| Emílio passa a ter contato com o
empresário Plácido de Carvalho e sua esposa, Pierina, de quem adquire material de
construção para suas obras. O casal morava em um palacete na av. Santos Dumont, já
demolido. Após a morte de Plácido, Hinko constrói a pedido de Pierina uma série de
casas para aluguel - os famosos castelinhos da CEART, na praça Luíza Távora - em torno
de seu palacete, que resistem até hoje. Os dois palacetes que têm fachadas para a av.
Santos Dumont, construídos inicialmente, são caracterizados pelo estilo lombardo (foto
abaixo). Os quatro restantes são propensos ao barroco romano e genovês modernizados,
influência da costa azul italiana. |

Conjunto de seis palacetes
ladeando o então Castelo do Plácido,
na av. Santos Dumont (3) |
Durante a
construção, Emílio e Pierina se apaixonam, e se casam. Emílio Hinko teve a visão do que seria a ocupação
da avenida Beira-Mar, ainda um grande vazio, e previu o seu projeto, comprando grandes
faixas de terra.
A primeira construção da Beira-Mar foi a
sua casa de veraneio, já demolida, no terreno onde hoje fica o estacionamento da Pizza
Hut na avenida da Abolição. O terreno do Clube dos Diários, ao lado, foi doado por ele
para que tivesse alguma vizinhança.
|
|
| Existe ainda uma série de obras projetadas
por ele, como o Clube Iracema, a atual Secretaria de Finanças da Prefeitura, a Casa do
Estudante (na rua Nogueira Acioly), a Igreja do Coração de Jesus, a Igreja de São Pedro
e a Capela das Missionárias, além de várias casas na av. Santos Dumont e na Praia de
Iracema. Um de seus principais colaboradores foi o engenheiro Alberto Sá, com quem
trabalhou em diversas obras - e o desenhista Aldo Mesquita. |
|

Edifício da Secretaria de Finanças (3)
Croqui para a atual Catedral de
Fortaleza. O projeto escolhido foi
um prédio neo-gótico (3)

Croqui de proposta do concurso para
a Faculdade de Direito. Foi escolhido
um outro projeto (3)
|
Emílio Hinko
também atuou como construtor. São dele, como construtor, os primeiros galpões do porto
do Mucuripe, assim como a ponta do Mucuripe (o quebra-mar). Sua construtora tinha sede no
Rio de Janeiro, e trabalhava principalmente para o Ministério da Educação, em obras
como as Escolas Técnicas de Salvador, Fortaleza e Teresina; e em reforma no Colégio Dom
Pedro II, no Rio de Janeiro. Fez os armazéns do Porto de Cabedelo, e obras em Pernambuco
e na Bahia. Foi reconhecido
como cidadão de Fortaleza e do Ceará. Nos últimos anos de trabalho, Hinko desenvolveu
projetos com premoldados. Ele tinha planos de criar uma escola de arquitetura para
estudantes carentes em Messejana. Há alguns anos, teve um derrame que o deixou
incapacitado de trabalhar. Hoje, Emílio Hinko vive no 4o. andar do Excelsior Hotel, no
centro da cidade.
"A obra de Hinko muito contribuiu para a
rápida transformação urbana que Fortaleza sofreu a partir dos anos 30. A pequena
Fortaleza de 100.000 habitantes cresceu, mas até hoje a obra de Emílio Hinko tem
importância na configuração do espaço urbano da cidade".

Emílio Hinko entre dois projetos: a proposta
para a Capela da Catedral e o Edifício José Lopes (3) |
|
|
|
legenda
das fotos |
(1) arquivo
Marcondes Lima / Flora Lima
(2) arquivo Rosita Jereissati
(3) exposição Emílio Hinko, biblioteca CAU-UFC
(4) foto Danielle Costa |
|
|
texto: Tiago Veras, a partir
de entrevistas com Flora Mendes Lima, Liberal de Castro, Marcondes Lima e Rosita
Jereissati; e matéria de Iracema Sales no Diário do Nordeste de 04 de janeiro de 1998,
no caderno Cidade. |